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 "Mud, besides being mercifully cheap, is undeniably beautiful: Structure dictates form and the material imposes the scale. Within the limits imposed by the resistance of mud and by the laws of statics, the architect finds a sudden freedom to shape space within the building, to enclose a volume of chaotic air, and to bring it down to order and meaning to the scale of the human being."
Hassan Fathy (1900-1989)

CONSTRUÇÃO SUSTENTÁVEL COM TERRA CRUA

Introdução Histórica

A terra como material de construção é utilizada pelo Homem desde tempos remotos e tem no seu passado uma longa História de aplicações e técnicas associadas.

Um pouco por todo o Mundo subssistem edifícios históricos e estruturas emblemáticas como comprovam os mais de 100 sítios inscritos na Lista de Património Mundial da UNESCO, com exemplos como parte da Grande Muralha da China, o complexo Alhambra, em Granada, ou as mesquitas e habitações de Timbuktu, no Mali.

Actualmente acredita-se que cerca de 3 biliões de pessoas nos cinco continentes trabalha ou vive em edifícios construídos com terra, pelo que a relevância deste tema em termos sociais e económicos assume contornos universais.

Visível de modo tradicional e contemporâneo tanto em países com carências económicas como em países desenvolvidos, a terra concilia na prática, a componente cultural com as dinâmicas sociais, a ecologia e a economia, estabelecendo as bases construtivas para um verdadeiro desenvolvimento sustentável. 

Em Portugal, a utilização da terra crua, como o demonstram diversos vestígios arqueológicos, terá tido as suas raízes na Pré–História e mais tarde numa forte influência da presença árabe na península ibérica. Por outro lado os factores climáticos e geológicos, sobretudo na região sul do país, associados às raízes histórico-culturais de utilização destas técnicas, foram sempre factores favoráveis à sua utilização, podendo encontrar-se um pouco por todo o país inúmeras edificações realizadas com a utilização de terra, nas técnicas tradicionais da Taipa, Adobe e Tabique.

Após um período de progressivo abandono na década de 70, assiste-se hoje ao ressurgimento da sua utilização, assente nas componentes ecológica e sustentável do material, e na introdução de novas tecnologias que abrem perspectivas positivas para o futuro da construção com terra.

  

Terra_Conhecer o material

A construção em terra é a utilização do material terra, sem transformação, a que se dá o nome de terra crua, por oposição à terra cozida. A mesma é geralmente retirada do próprio terreno, preparada e utilizada na construção com recurso a técnicas diversas.

Trata-se de um material abundante e reutilizável, não processado industrialmente e, por comparação com outros materiais, ecológico. O seu uso pressupõe uma verdadeira economia de meios e recursos, de tempo e de energia dispendida no seu fabrico, mas também na extracção da matéria-prima, na sua transformação, no transporte do material fabricado, na sua aplicação em obra, na utilização de maquinaria simples e força humana. 

Este aspecto de economia acompanha todo o rendimento da construção ao longo da vida até à sua demolição e, inclusivamente, no seu processo de decomposição ou de reutilização, ao destruir-se uma construção em terra, todos os seus componentes principais voltam para de onde vieram, podendo todo o ciclo ser reiniciado.

As principais desvantagens desta construção prendem-se sobretudo com a fraca resistência mecânica do material a esforços de tracção e a sua degradação na presença de humidade excessiva. Estes factores são hoje em dia facilmente solucionados pela adequação das formas, dos remates e dos revestimentos, com uma gestão adequada de projecto e obra, com a utilização de meios de controlo de qualidade e estabilização, a mecanização de processos e a associação a outros materiais complementares, mas sobretudo e sempre pela relação quotidiana com o edifício como forma de manutenção das qualidades da terra na construção.

Por outro lado a terra apresenta boas características térmicas, através da sua elevada inércia térmica permite que o interior dos espaços seja fresco no Verão e quente no Inverno, travando a entrada do frio e do calor. Deste modo, a terra reduz assim as amplitudes térmicas e os consumos de energia ao longo da vida útil do edifício, paralelamente às suas mais-valias acústicas e ao seu excelente comportamento face ao fogo.

  

Perspectivas para o Futuro

A construção com terra crua apresenta-se como uma solução construtiva ecológica com inúmeras vantagens técnicas, permitindo uma utilização sustentável e a preservação de recursos naturais.

No seu passado histórico e tradição construtiva é visível não apenas a sua especificidade enquanto material mas sobretudo a extraordinária síntese intangível que encerra, com forte presença e raízes culturais difundidas pelo Mundo. 

O futuro passa por duas frentes incontornáveis de valorização da técnica: a sofisticação e a modernização da sua execução com competitividade a nível económico; e a investigação científica, desenvolvimento do material e formação técnica de utilização da terra.

A Construção com terra representa no futuro um compromisso entre a tradição e a modernidade, contribuindo activamente para o debate sobre temas fundamentais da contemporaneidade como o desenvolvimento sustentável, as desigualdades sociais e económicas e a diversidade cultural.

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Gráfico comparativo de temperaturas interior e exterior numa construção em taipa em Serpa , no período de 1 a 15 Julho 2006, © BetãoeTaipa